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sábado, 17 de março de 2012

OS INTELECTUAIS E O FUTEBOL.

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O sociólogo e escritor Gilberto Freyre era um observador das manifestações culturais e sociais do Brasil republicano, e fez uma breve citação do esporte bretão, tão conhecido por nós como futebol. Segundo Freyre, às vésperas da Copa do Mundo de 1938, o futebol brasileiro teria sucesso durante o evento esportivo, por causa da sua malandrice, elaticidade e plasticidade encontrada entre negros e mulatos, porém nem todos compreenderam os aspectos sociológicos e antropológicos do futebol, como no comentário infeliz de Graciliano Ramos, com uma das suas curtas e secas definições: “Que nesta terra, o futebol não pega”. Ledo engano. O tricolor Nelson Rodrigues e o flamenguista José Lins do Rego colocaram o futebol não só como tema literário, mas como esporte heterogêneo e identidade nacional, segundo o autor deste belo exemplar, o escritor, ensaísta e crítico literário Mauro Rosso [ ROSSO, Mauro. Lima Barreto versus Coelho Neto: um Fla – Flu literário, Ed. Bertrand Brasil, Rio de Janeiro, RJ, págs 240, 2010 ], sobretudo, pelo fato de ter sido definido no período pré – modernista ( 1900 – 1922 ) por Lima Barreto, como essência da burguesia elitista, cultura europeia com uma temática estrangeirista, colocando – o na marginalidade, primeiramente, pelo tom “rebelde” na escrita em um tempo parnasiano, prosaico e um fiel opositor à uma literatura oca e um esporte paradoxal, ou seja, civilizados agindo como bárbaros romanos por uma bola de futebol e criando cizânia entre os cidadãos.
Contrapondo ao pensamento de Lima Barreto, eis que surge Coelho Neto, defensor do esporte e cronista esportivo, cobrindo a ascensão do futebol no eixo Rio – São Paulo, colocando – o no panteão da sociedade burguesa na cultura modernista. Lima Barreto não aceitava, tinha ojeriza do esporte bretão, que ocupava o ceio da nata intelectualizada para uma cultura social estreita e singular. O futebol popularizou – se nos clubs, o primeiro em abrangência, o Fluminense Football Club no Rio de Janeiro e nas fábricas paulistanas entre operários italianos que fundaram o Palestra Itália, atual Palmeiras, em São Paulo, mexendo, independente das questões ideológicas, anarquistas e comunistas, que estavam na estreita relação paixão e ódio, através do futebol.
Coelho Neto colocava o esporte do bola no pé como elemento moderno, físico e atlético de uma forma helenística, endeusando jogadores, como se o Estádio das Laranjeiras fosse o Monte Olimpo, e protegido pela deusa Atena, na concepção prosaica de sua Grécia ad hoc, com o honroso football. Naquele momento, Barreto busca em Nietzsche a essência da alma europeia do Super – Homem e seus absurdos. Ei – las: “Aos primeiros às naturezas plenas ( os “Super – Homens” ), a esses seres privilegiados, artistas do pensamento e da ação, que sabem governar – se, manejar as paixões em proveito próprio ( tomem nota ), desviar as reações, ela ( a tal moral dos Super – Homens ) tudo permite para a sua existência, o seu equilíbrio na vida universal: aventuras, incredulidades, repouso, o próprio excesso, a impiedade, a rudeza”...
Uma linha de pensamento compatível com o filósofo inglês Herbert Spencer, ao definir o futebol como esboço da guerra entre os homens, a dialética. Mesmo assim, dos intelectuais Orígenes Lessa à Fernando Sabino, o futebol tornou – se uma instituição mundial e cultura nacional, algo ad eternum, conquistando inclusive, Graciliano Ramos.

domingo, 11 de março de 2012

DESÍGNIOS LITERÁRIOS NA ERA MEDIEVAL

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Segundo o escritor Oscar Wilde: “A literatura antecipa sempre a vida. Não a copia, amolda –a aos seus desígnios”, lapidando e moldando o espírito. Esta linha de pensamento serve também para os escritores de prova e verso de Portugal que moldaram a cultura falada e escrita entre os anos 1198 – 1507, consolidando a língua vernácula lusa, com uma rica historiografia dos poetas palacianos, nos reinados de Afonso V, D. João II, D. Manuel e finalmente o lírico e teatrólogo Gil Vicente e bem escrita pelo crítico literário Segismundo Pina [ PINA, Segismundo. Presença da literatura portuguesa. Era Medieval, Ed. Difel, São Paulo, SP, págs 386, 1998 ].
Portugal passava por um momento de transição, principalmente no campo político com a formação da Dinastia de Avis e uma nova mentalidade literária, sem perder uma escrita prolixa, entretanto, é um marco na formação da estética e da beleza absoluta, impregnando inclusive os autores trovadores e posteriormente renascentistas. O apetite e a vitalidade dos trovadores lusos e galegos ganhou força por toda Baixa Idade Média, com uma literatura refinada, tanto na escrita erudita quanto na popular com poesia chamada de “cantares d’amigo” e “cantares d’amor”, enaltecendo a vida campesina e urbana, extremamente popular das meninas casadouras, apaixonadas e com saudades dos seus namorados que foram combater os mouros nas trincheiras. Eis um trecho do poeta, trovador e aristocrata Afonso III:

Vi eu, mia madr’, andar
As barcas eno mar:
E moiro – me d’amor.

Fui eu, madre, veer
As barcas eno ler ( praia )
E moiro – me d’ amor.

As barcas eno mar
e foi – las aguardar:
e moiro- me d’amor.

As barcas eno ler
E foi – las atender ( esperar )
E moiro –me d’amor.

E foi – las aguardar
E non o pu’ achar:
E moiro – me d’amor.

E foi – las atender
E non o pude veer:
E moiro – me d’amor.

E non o achei i,
O que por meu mal vi:
E moiro – me d’amor

( E non o achei lá, o que vi por meu mal:
E moiro – me d’amor. )

Nos séculos XV e XVI ocorre a transição da Literatura trovadoresca com a renascentista, tendo como principais expoentes Gil Vicente, Camões e Fernão Lopes ainda com uma mentalidade feudal nas suas obras, tendo uma grande influência da cultura cristã, fruto da formação da sociedade conservadora e gótica tipicamente medieval.
Fernão Lopes foi um meticuloso historiógrafo, um cronista que valorizava um tom coloquial na escrita lusa, com uma sensibilidade aguçada e novelesca, buscando neste momento um certo distanciamento da retórica e indo em busca da linguagem popular, quase plural nas ideias que estavam em formação, com uma literatura moralista e didática no Reino de Avis, com uma forte presença da poesia palaciana no Governo Joanino.
O teatro português ganha notoriedade com Gil Vicente e Camões, no qual ambos gozam do espírito democrático das letras, porém com rigorosa influência ortodoxa da cristandade portuguesa. Os textos de Gil Vicente estão carregados de lirismo, uma escrita poética e universal, com um sopro de arte histórica para ser exaltada da mesma forma que a Capela Sistina no Vaticano. Sua escrita mostra sensibilidade nas coisas mundanas, bem diferente de Camões ,que tinha sim, uma escrita refinada e cosmopolita, no entanto, foge da realidade portuguesa e até europeia entre os séculos XV e XVI. Tenho para os leitores uma poesia lírica do português Jorge de Aguiar, seguindo a mesma linha de Gil Vicente e Camões, escrita em 1508:

Coração, já repousavas,
Já não tinhas sojeição,
Já vivias, já folgavas;
pois por que te sojugavas
outra vez, meu coração?

Sofre, pois te não sofreste
na vida que já vivias;
Sofre, pois te tu perdeste;
Sofre, pois não conheceste
como t’outra vez perdias!

Sofre, pois já livre estavas
e quiseste sojeição;
Sofre, pois te não lembravas
das dores de qu’escapavas;
Sofre, sofre coração!

( Cancioneiro Geral, II )

Enfim, estes poetas e escritores trovadores consolidam definitivamente a Literatura Portuguesa com um tom clássico, uma escrita e linha de pensamento que respingou no Renascimento com uma dualidade bem definida na escrita coloquial e erudita, influenciando outros poetas como Dante Alighieri com a sua magnífica obra homérica “A Divina Comédia” e o escritor Michel de Montagne, com uma percepção intelectual pós – moderna em uma Europa transitória. A cultura literária barroca fomentou uma pluralidade excepcional do pensar moderno no século quinhentista, enveredando caminhos, levando como nômades, as letras por toda a Europa, tornando – se uma característica peculiar dos eruditos de Maquiavel, Goethe à Gogol polarizando a literatura poética e lírica.





sexta-feira, 2 de março de 2012

O LATIM, AS LÍNGUAS VERNÁCULAS E OS DIALETOS

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Segundo o historiador das culturas Peter Burke, o estudo social da linguagem e da arte da conversação, só é possível com uma integração entre o trabalho intelectual do sociólogo, linguista e do etnólogo, buscando um diálogo racional das ciências e do entendimento dos tipos de linguagem. O historiador garimpou textos do final da Idade Média – ou início do Renascimento Moderno – para mapear o processo de alfabetização na Itália, construindo uma pirâmide etária cultural dos florentinos, napolitanos, romanos, toscanos, venezianos entre outros grupos sociais na Península Itálica, surgindo esta bela obra literária e histórica [ BURKE, Peter. A escrita da história, Ed. UNESP - São Paulo, págs 360, 1992 ].
O processo de alfabetização das famílias patrícias urbanas dos séculos XV e XVI, fortaleciam os laços familiares, a integração de dialetos e do próprio latim clássico, perante a nobreza italiana e o latim vulgar com a massa popular na cultura oral e escrita. A língua latina mostrou a sua força no Sacro Império Romano – Germânico, porém as reformas protestantes de Martinho Lutero, João Calvino e Henrique VIII, popularizaram as línguas vernáculas como o alemão, o francês e o inglês.
Na análise do historiador Don F. McKenzie, uma tribo neozelandesa absorveu a língua inglesa durante o processo de aculturação, porém exigiu dos colonizadores do século XIX a preservação do dialeto maori e tradução inclusive da Bíblia para o dialeto. Esta tribo neozelandesa apresentou um comportamento de resistência, procurando manter o seu dialeto. Seguindo a mesma linha, a Igreja Ortodoxa quinhentista, realizou o Concílio de Brest – Litovsk, no Reino da Polônia – Lituânia, aceitando a supremacia papal, desde que pudesse manter o seu culto em eslavo eclesiástico arcaico e traduzindo os testamentos religiosos para a língua eslava.
A formação dos Estados Nacionais contribuiu na integração lingüística da Itália, França, Portugal, Alemanha entre outros Estados, ainda em formação sociocultural, porém os dialetos eram considerados pela burguesia culta européia, algo retrógrado e um impedimento no desenvolvimento do Estado no campo jurídico, político e social. No processo de unificação da Itália ( 1871 ), o dialeto toscano torna – se a língua oficial da Península Italiana, tentando fragmentar antigos dialetos, apesar da resistência dos dialetos napolitano e siciliano. O Paraguai é um país bilíngue, valorizando, sobretudo, as suas raízes culturais, tendo como leitmotiv o dialeto guarani. Na Espanha, os dialetos tem um peso significativo nas questões políticas, culturais e sociais; dividindo o país com regionalismo ortodoxo, enriquecendo este país Ibérico com galego, basco e catalão, com pitadas filológicas do grego e árabe.
Mesmo assim, o latim não perde a sua força na Idade Moderna e parte da Idade Contemporânea no meio acadêmico e eclesiástico, atendendo um contexto internacional no campo diplomático e jurídico. A língua molda os Estados e fortalece o nacionalismo, desde o século XIX. Na visão de Peter Burke: “Quando a questione della língua surge, ela significa que grandes mudanças estão ocorrendo. O historiador precisa refletir sobre elas”; sem desconsiderar os dialetos que representam culturais locais ou regionais.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

HERANÇAS HOMÉRICAS

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A literatura tem duas vertentes que são fundamentais para serem discutidas em uma roda de amigos ou no meio acadêmico ou escolar. A primeira é o conhecimento literário via oralidade e a segunda através da própria escrita. A formação da cultura literária entre os helênicos, por volta doas séculos VII e VI a.C; com o ícone das letras gregas e precursor das obras mitológicas com o realismo, o poeta Homero. Este escritor publicou duas obras que são a grande referência para os escritores pós – Homero, com os clássicos “Ilíada” e “Odisséia”.
Os escritores que vieram posteriormente, como o romano Virgílio, escreveu o clássico “Eneida” como um mosaico literário, semelhante a própria cultura heleno – latina e resgatada com muita propriedade pelo renascentista e barroco Dante Alighieri com a “Divina Comédia”, prontamente estudada pelo historiador Fernand Braudel, buscando as relevâncias da cultura clássica em um mundo que estava metamorfoseando. As obras de Homero foram escritas no alfabeto cirílico, escrita pelo seu sobrinho, cujo nome também é Homero devido a falta de capacidade do seu tio de escrever por causa da cegueira.
A Grécia Antiga deixou – nos algumas cronologias, como uma crônica em mármore e redigida por um escritor desconhecido em 264 a.C em “Mármore de Paros” ou do cronista Eratóstenes que escreveu “Cronologia” ou o bibliófilo Apollodoro, com a obra “Biblioteca”, valorizando incunábulos, desde os deuses até as obras homéricas, com refinamento e classe. Estes escritores, foram verdadeiros arqueólogos do saber, não deixando no esquecimento, o historiador Tucídites com a obra “História das guerras do Peloponeso” ou do geógrafo Strabon, que mapeou com a escrita arcaica grega, o mundo helênico, tornando – se hors concours em descrição do seu tempo.
Todos estes escritores foram pertinentes na costura, fios e rastros, no lirismo poético na literatura antiga e na lapidação das idéias, conceitos, historiografia e principalmente na composição cultural dos homens antigos e em formação, herdada pelo ocidente, deixando uma herança intelectual para nós e compreensão da formação das almas no mundo grego. Como em qualquer arte, e a literatura não é diferente, o gênio foi Homero e os demais são discípulos que não permitiram a morte de uma cultura literária, mesmo quando ocorreram pilhagens entre etnias no mundo grego.
Os escribas foram fundamentais para a composição jurídica das Cidades – Estados, usando o sistema pictográfico como forma única e técnica para as sociedades antigas. A literatura e a história da literatura, são os únicos caminhos que podemos percorrer e entender o cotidiano e a temporalidade no mundo antigo e criarmos o paralelo com o nosso tempo presente.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

GARRAFAS AO MAR...

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O escritor colombiano Gabriel García Márquez é considerado um dos maiores pensadores da literatura contemporânea, por filtrar as razões e loucuras, que dominam o intelecto humano. A obra que citarei é um conjunto de textos que percorre a vida e as observações do prêmio Nobel de Literatura e um fervoroso apreciador e defensor da cultura latino – americana [ MARQUEZ, Gabriel Garcia - Eu não vim fazer um dircurso, Ed. Record - Rio de Janeiro, págs 127, 2011 ]. García Márquez faz críticas contundentes ao pensamento eurocêntrico e bem esmiuçada pelo escritor italiano Giovanni Papini: “A América Latina é feita de sobras da Europa”.
A identidade de Simon Bolívar vai além da esfera geográfica, alimentando almas para sairmos de um gênero humano pequeno para engrandecermos e desfigurar estereótipos que ainda persiste na mente humana fora da América Latina, desejando o fim da interferência em todas as esferas. Como bem definiu Bolívar: “ Deixem – nos fazer tranquilo a nossa própria Idade Média”, uma crítica contundente por interferirem o curso natural do homem americano. O escritor da clássica obra “Cem anos de solidão” vai nas linhas da alma dos que se sentem sós na sua Colômbia , terra arrasada pela miséria, fruto do narcotráfico, o hiato social entre a burguesia elitista que alimenta as cegas o tráfico no país.
Nesta esplendorosa obra, o escritor valoriza os ofícios de escritor e jornalista, essenciais para a formação de almas, busca constante de auto - análise e da produção de ideias para serem comungadas por todos, sem distinção social e valorização do outro com textos jornalísticos em jornais sérios. Segundo o autor do livro, a Literatura é uma maneira sui generis para fragmentarmos regimes que implicam atraso na formação do homem, e vemos com propriedade essas condições na retalhada América Latina, manchada de sangue e profundamente sentida com as mães na Plaza de Mayo, em Buenos Aires, que não se cansam de chorar pelos filhos que não poderão jamais enterrar. Como em um tabuleiro de peças soltas o sociólogo Zigmunt Bauman busca e monta explicações muito interessantes em um mundo moderno e pós - moderno, mas nós ainda tentamos encontrar uma identidade renascentista na América Latina, algo só comparável com a retalhação na África negra. Este belíssimo volume mostra para o mundo, que a América Latina pode e deve ser pensada pelos nossos escritores. Escritores latino - americanos, mesmo que tenhamos que jogar garrafas ao mar para que todos entendam, que nós pensamos.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

POR QUE LER OS CLÁSSICOS?

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O escritor e crítico literário Milan Kundera fez a seguinte definição sobre o fato de lermos boas obras, sobretudo obras clássicas: “Todo leitor é um leitor de si mesmo”. Um clássico da literatura nos favorece para adentrarmos nos solilóquios e aforismos dos escritores e dos personagens, em um universo paralelo ou indiretamente fazemos parte dos elementos que compõe uma ficção ou não. Calvino faz a sua impressão ao definir a leitura de um clássico “Toda releitura de um clássico é uma leitura de descoberta como a primeira”. Esta linha de pensamento requer deferência, com a obra do escritor italiano Ítalo Calvino [ Por Que Ler os Clássicos? Companhia das Letras, SP, págs 380, 1993 ], citando obras lidas por ele, como os clássicos homéricos “Ilíada” e “Odisséia”, fontes plurais da cultura helênica e lirismo clássico herdada por todo o ocidente, como essência poética e humana. William Shakespeare e o dualismo amor/ódio na trama teatral e literário “Romeu e Julieta”, marcando a humanização renascentista e a dialética do bem e do mal. “Os irmãos Karamazov” do escritor russo Dostoievski é uma célula do vasto território russo, através da ficção, de uma forma idiossincrática na Rússia pré – Lênin de um Estado feudal falido e socialmente comprometido, angustiando essa sociedade em transição e à margem do arcaico e do moderno.
“Os miseráveis” do escritor Victor Hugo relata as observações sociológicas e de uma certa forma, os resultados da França bonapartista e totalmente à mercê da burguesia, nada sensibilizada com as condições sociais dos denominados “cagots”, tão marginalizados quanto os palestinos no Oriente Médio ou dalits na índia. Dante Alighieri com a sua obra “A Divina Comédia” é um pêndulo de um processo transitório feudal e profundamente estático para o moderno e movimentado mundo intelectual no século XV. Um livro que pode ser definido com um tratado sobre as estruturas mentais do “obscuro” mundo medieval e bem definida por Umberto Eco, uma exigência estética corporal e mental, seguindo a linha metahumana e metafísica
O escritor e historiador Carlo Ginzburg com o seu “O queijo e os vermes” alimenta – nos com um novo olhar histórico, denominado micro – história, buscando a mentalidade do homem comum e do campo, um livro sine qua non na literatura universal e entrelaçando com a história, através de uma nova maneira de construir uma narrativa com pilares culturais e fomentando uma idéia nova sobre a historiografia moderna. Fugindo dos estereótipos entre o Ocidente e Oriente, Calvino menciona a obra “Orientalismo” do escritor Edward Said, não só valorizando o lado intelectual e humano, mas os resultados da interferência européia no Oriente Médio, tendo um valor literário peculiar sobre o monoteísmo islâmico em um mundo que é um mosaico étnico e cultural. Ler clássicos, é claro, muitos não foram mencionados, são fundamentais para abrirmos nossas mentes e entendermos a compreensão sociológica, antropológica, geográfica e histórica do mundo numa linha temporal e única.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

INQUIETAÇÕES LITERÁRIAS

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Na condição de escritor e leitor, eu gostaria de citar obras que aguçam a minha curiosidade literária neste momento. Alguns livros que não foram lidos por circunstâncias ainda não explicadas, porém, acredito eu, falta de maturidade ou puro desinteresse nos temas propostos pelos autores ou livros que eu já li, entretanto, foram proibidos por questões ideológicas. Na semana passada li uma matéria sobre a obra condenada pelo clérigo islâmico e falecido Khomeini, “Versos Satânicos”, do escritor Salman Rushdie e publicado nos anos 80. Hoje, radicais islâmicos condenam livros, assim como a Igreja Católica fez nos tempos medievais, colocando autores na berlinda e considerando obras uma verdadeira afronta à formação cultural e intelectual dos conservadores religiosos. Ideias e retóricas são forças –motrizes para alimentar os nossos neurônios, mas muitos foram e são colocados como antro da perdição humana, proibidos nos Estados Totalitários. As obras “O Processo” e “Metamorfose” do lírico escritor tcheco Franz Kafka, foram proibidos na extinta União Soviética, por ter uma conotação burguesa, assim como o escritor, dramaturgo e filósofo moderno Jean – Paul Sartre com o famoso “A Idade da Razão”.
Um livro sobre a vida de um romântico e intelectual burguês, na França da clássica Piaf pós – II Guerra Mundial. Sartre, para os leigos, era membro do Partido Comunista Francês, entretanto, sua obra não foi publicada na URSS. Carlos Drummond de Andrade foi achincalhado em um colégio de jesuítas, em Friburgo. Seus poemas passaram batidos e seu reconhecimento ficou em segundo plano e mágoas nada poéticas em Drummond, com crônicas que serão em breve publicadas. Um dos maiores escritores da Turquia, Orhan Pamuk, tornou – se persona non grata por ter um posicionamento político. Seu posicionamento custou caro, no que se refere à publicação do seu livro “Neve” no território turco, sob constante observação do Ministério da Cultura na Turquia. O livro “Em nome de Deus” do escritor David Yallop cita o submundo da cristandade, mantida em segredo por séculos e conceitos que não condizem com a filosofia cristã. Um livro que mostra o Vaticano com um telhado de vidro tão frágil quanto nos tempos de Lutero, mas um livro parcialmente lido por mim. São obras que não tive a oportunidade de ler, mas acredito que no momento oportuno, chegarão em minhas mãos naturalmente, absorvendo as observações desses ora célebres, ora “perigosos” autores que deixa-me inquieto e curioso, assim com a obra “Os Manuscritos do Mar Morto” ( foto ) do escritor Laperrousaz, citando pergaminhos intactos encontrados em meados do século XX, e hoje encontram – se na Universidade Hebraica de Jerusalém, ou seja, uma verdadeira arqueologia filológica e literária antiga e cânone bíblico. A inquietude toma o pensamento que vagueia entre essas obras. E que obras!!

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

SAQUAREMAS E ESCRAVOS NO IMPÉRIO DO CAFÉ.

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A historiografia tradicional pautou uma ideia bem peculiar, ao definir a cultura agrícola do Brasil Imperial e pós – emancipação da Metrópole portuguesa, numa linha branca e dominadora e negra subjugada, numa condição passiva. O repensar dos historiógrafos ganha notoriedade com vários trabalhos atuais, dentre eles, do historiador Tâmis Parron, com uma bela pesquisa científica, transformada em uma obra voltada para a política escravocrata no Império entre 1826 e 1865 [ PARRON, Tâmis. A política da escravidão no Império do Brasil: 1826 - 1865. Ed. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, págs 373, 2011 ]. A antítese entre defensores do escravismo no Brasil e os abolicionistas é vista no primeiro capítulo do livro, com o pensamento do baiano José de Alencar em 1867, com uma publicação em formas de cartas ao Imperador, como um fiel defensor da escravidão e temendo a desestruturação do complexo econômico e membro do Partido Conservador, aliás, um partido que dominou a cultura política e escravocrata, denominada na época como o tempo saquarema ( 1830 – 1860 ).
Por outro lado, a nata da intelligentsia pró – abolição, defendia o fim da escravidão, como as obras da historiografia do século XIX “A emancipação dos escravos” ( 1884 ) de Rui Barbosa e o “Abolicionismo” ( 1883 ) de Joaquim Nabuco. Estados Unidos, Cuba e o Brasil foram os maiores comerciantes de escravos, mantendo o trabalho nestas respectivas terras para manter aquecida uma economia de algodão no Sul dos Estados Unidos, anil e cana – de – açúcar em Cuba e o café no Brasil. Mesmo assim, debates estavam cada vez mais acalorados no ceio político na capital do Império Brasileiro, e temores com os levantes de escravos, como a Revolta dos Malês ( 1835 ) em Salvador, a Revolta de Manuel Congo ( 1837 ), na freguesia de Pati do Alferes, comarca de Vassouras e a sublevação de escravos na freguesia de Carrancas, comarca do Rio das Mortes, Rio de Janeiro, em que escravos dizimaram a família Junqueira.
Neste momento, os escravos giravam em torno de 60% à 70% nas comarcas e províncias, exigindo cada vez mais o processo imediato da abolição de escravos. A resistência era sentida entre regressistas escravistas, com amplo domínio nas câmaras municipais no Poder Executivo e no momento de crise do Brasil pós – D. Pedro I, no que se refere o Período Regencial ( 1831 – 1840 ) e prontamente combatido pelo padre Feijó. A expansão agrícola fica visível no Centro – Sul do país, no eixo Rio de Janeiro – Vale do Paraíba – Minas Gerais com a ocupação de saquaremas ( conservadores ) nos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, alinhados com o Poder Moderador, criado na Constituição de 1824 e tendo como leitmotiv a escravidão legal e ilegal em vilas de Piraí, Valença, Barra Mansa do Barão de Airuoca e Bananal como novas fronteiras do café.
O Império entre 1836 – 1839 teve uma enorme intensidade do tráfico negreiro, com uma porcentagem de 540%, transplantando assim, cerca de 270 mil africanos. Segundo o historiador José Murilo de Carvalho, este corporativismo favoreceu os regressistas no tempo saquarema e a hegemonia, expressão bem empregada pelo filósofo Gramsci, ao dizer que a hegemonia é obtida mediante a "orientação impressa pelo grupo fundamental dominante a vida social" e o Estado como "aparelho de coerção". Os levantes de escravos incomodava os saquaremas, como no caso da insurreição quilombola de Vassouras ( RJ ), com um forte teor conspiratório contra o senhores do café e a febre amarela, assolando os cativos.

A pressão externa para o fim do tráfico negreiro acirrava os ânimos entre liberais e conservadores. Neste zabumbar, os liberais temiam um confronto militar entre o Brasil e Inglaterra, devido as divergências econômicas e ideológicas sobre a escravidão e a forte pressão do fim do tráfico negreiro, após a criação da Lei Bill Aberdeen ( 1845 ). O visconde de Olinda temia um colapso da economia com o fim da escravidão, mas a ideia do fim do escravismo ganhou força após a abolição da escravatura nos Estados Unidos em 1863, substituindo paulatinamente no Brasil, os negros escravos por europeus e chineses livres, com a total erradicação do sistema escravocrata em 1888 com a Lei Áurea ( Foto ). Como bem definiu o escritor Rui Barbosa:"Ninguém, neste país, divinizou jamais a escravidão", com uma ruptura de um arcaísmo e iniciando um novo Brasil, livre e prestes à implementar a cultura republicana e positivista.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

A RETÓRICA E AS IDEIAS!

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O historiador e filósofo Michel Foucault deixou um grande legado professoral, surgindo a obra A ordem do discurso [ FOUCAULT, Michel -A ordem do discurso – São Paulo, Edições Loyola. Págs 80, 1996 ] de grande relevância na minha formação de professor, cidadão crítico, animal político e escritor, dando ênfase na importância e parcimônia nos discursos que são trabalhados fora e dentro do mundo acadêmico. Esta obra é a aula inaugural no Collége de France, pronunciada pelo filósofo e historiador Michel Foucault ( 1926 – 1984 ). Segundo o pensador francês, o discurso pode apresentar reflexos, como inclusão de seres ou exclusão, como a interdição de falas ou algo que foi escrito, causando um mal – estar ou não, como microfísica do poder.
A retórica tem essência na História. Nasceu com os primeiros filósofos gregos, buscando a fala e posteriormente com a escrita, a consolidação de uma ideia que ainda encontrava – se no campo da metafísica, porém o objetivo máximo, é transformar um pensamento em algo concreto, sólido, sereno e estável para entrincheirar valores deturpados e tão presentes no nosso cotidiano. Segundo o escritor argentino Carlos Miguel, ninguém tem certeza se existiu ou não o poeta grego Homero ( o nome Homero, significa “mendigo cego”), ou seja, o modelador do espírito grego, no entanto, deixou um legado com as suas obras: “Ilíada” e Odisséia” devido a recitação dos poemas helênicos, feita pelo próprio Homero e pelos seus admiradores, valorizando a cultura grega e uma retórica sobre a valorização da razão como um todo.
Na Idade Média, a retórica era monopolizada pela cristandade, principalmente nos principais centros acadêmicos como de Paris, Salamanca, Oxford, Pisa e Gregoriana de Roma, com uma retórica teocrática e indivisível. A sociedade civil européia, excluída e amedrontada com fatos mitológicos sombrios, ignorância no campo do saber e impedidos de construir um espírito crítico, sentia os efeitos das mazelas sociais. O resgate da crítica construtiva ganha consistência no Renascimento Italiano, tanto nas artes, como nas obras de Maquiavel, passando por Erasmo de Rotterdam, Miguel de Cervantes, entre outros.
Desde o século XIX, segundo o sociólogo polonês Zigmunt Bauman, a loucura tem uma ligação forte com o discurso e padrão de comportamento dos marginalizados e esquecidos, colocados em hospícios, verdadeiros depósitos de gente, no qual políticos e as elites realizavam verdadeiras limpezas sociais. Talvez ninguém na história, tenha apresentado discursos tão inflamados como Hitler durante o nazi – fascismo, tentando levantar a auto – estima da sociedade germânica, com uma retórica hierárquica e hegeliana, enfim, consolidando a sua luta com idéias absolutas e limpeza étnica. “O poder, de que queremos nos apoderar”, não morreu com os regimes totalitários, eles estão impregnados em todos os segmentos da sociedade.




quarta-feira, 16 de novembro de 2011

O RISO E A ROSA

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Como professor de História e historiógrafo, eu pude analisar o filme e ler a obra O Nome da Rosa do escritor italiano Umberto Eco [ ECO, Umberto - O Nome da Rosa. Ed. Difel. Lisboa, págs 500, 2004 ] descrevendo a postura detetivesca e cultural de uma das maiores mentes da intelectualidade italiana. Nestas duas oportunidades eu procurei analisar a seguinte pergunta: Jesus riu? O historiador medievalista Jacques Lê Goff foi em busca das respostas com o trabalho intelectual dos teólogos medievais.
No Antigo Testamento, encontramos palavras que apresentam uma forte ligação com a palavra riso. Temos logo de cara duas palavras: sâhaq, que qualifica “alegre ou positivo” e lâac, que apresenta um riso irônico, zombeteiro ou maldoso. Na cultura grega existem termos diferenciados, porém uma mesma raiz do conceito: gelán, “rir”, e Katagelán, “zombar de”. Na Idade Média o risus ganha um conceito de pecado, voltado para o prazer ainda na Alta Idade Média . Os teólogos deixaram um legado artístico e cultural, com marcas de um Cristo, com um semblante sério ou de sofrimento na cruz com as artes sacras bizantinas e ortodoxas.
O filósofo grego Aristóteles dizia nas suas interpretações, que o riso é próprio do homem, e este questionamento ganhava novas interpretações com autores cristãos, que estudavam o homo risibilis, não no sentido de ridicularizar o homem com uma postura irônica, e sim como um ser que apresenta espontaneamente o riso naturalmente. Os teólogos relatam nas suas análises, que na Idade Média, ninguém ri sozinho. Para Lê Goff: “De que, de quem se ri, com quem se ri?” Como um bom herdeiro dos Annales na França, o historiador foi nas estruturas sociais e nas mentalidades da cultura do riso, de uma forma coletiva e a risada mostra a sociabilidade no mundo medieval.
Na Idade Média Central, o homem cristão apresentava uma leve liberdade com o riso, tendo como o espaço significativo para este exercício, a literatura cômica, tendo estudiosos das línguas latina e dialetos regionais no meio acadêmico. Na chamada Baixa Idade Média o aristotélico Rabelais fez a seguinte declaração: “rir é próprio do homem” . Nem o Rei da França São Luís aguentou o riso na sexta – feira, dia da morte de Cristo. No filme e na obra literária de Umberto Eco, temos um personagem fictício ultra – conservador e monge Jorge de Burgos, como um inimigo cruel do riso numa Igreja recalque, porém o riso não é obra do diabo e sim do homem. Eco refletiu como poucos nesta belíssima obra a dialética e a retórica entre os próprios cristãos a verdadeira concepção filosófica do homem medieval e sua estética em um mundo não tão distante da nossa realidade.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

PROSAS DE UM POETA VANGUARDISTA

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A leveza espiritual era uma das marcas registradas do escritor e poeta tcheco Rainer Maria Rilke ( 1875 – 1926 ). Este artista de sensibilidade humana era um neoromântico vanguardista e um pensador lírico, estudado por mentes brilhantes como Pedro Süsseking e Manuel Bandeira, enaltecendo as prosas do poeta, que tinha um amplo domínio da língua alemã. Sua escrita refinada alimentava as almas mais agudas e sensitivas, buscando a transparência da sua alma e conceitos humanos que ficam perdidos dentro dos espíritos que estão entregues as angústias e dilemas do nosso cotidiano. Entre 1902 e 1908, o poeta escreveu com uma sutileza sui generis e finura como poucos, rabiscando linhas de uma forma subjetiva, dando ênfase nos rumos de uma forma poética:
O mundo estava no rosto da amada – e logo converteu – se em nada, em mundo fora de alcance, mundo – além.
Porque não o bebi quando o encontrei no rosto amado, um mundo à mão, ali, aroma em minha boca, eu só seu rei?
Ah, eu bebi. Com que sede eu bebi. Mas eu também estava pleno de mundo, e bebendo, eu mesmo transbordei
.”
Rilke escreveu cartas para o amigo, intelectual e jovem Franz Xavier Kappus, com doses homeopáticas de ânimo e sabedoria, nos momentos de inquietações e sofrimento da sociedade buscando o bem com ele mesmo e ajudando o próximo, sem interesses mundanos, alimentando -se com uma auto – reflexão em um mundo tão cruel. O medo, o novo, são elementos que representam a doce loucura kafkiana, ou seja, uma verdadeira metamorfose para o amadurecimento do ser pleno de uma forma poética e inteligente. Em um mundo de incertezas, Rilke queria ser o arquipélago emocional, explorando as letras, palavras firmes para almas enfraquecidas em uma Europa dividida em modernização metalúrgica e um feudalismo peculiar numa Rússia, prestes a realizar uma Revolução, em um turbilhão de ideologias colocadas como verdadeiras bandeiras e com pitadas de extremismo. Esta breve citação, não passa de um grão de areia em uma vastidão de pensamentos líricos de um legitimo representante do pensamento moderno, em um mundo em transformação, deixando um legado pertinente e sábio. Rilke foi e ainda é moderno em todos os sentidos.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

O CAFÉ E O DEVIR

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O comediante Chico Anysio fez em uma determinada ocasião, a seguinte definição sobre as três refeições do nosso dia a dia: “O brasileiro tem café, almoço e jantar”. Claro, em um país tão desigual, nem todos conseguem alimentar – se no desjejum, mas uma xícara de café é indispensável na vida de muitos, obviamente, por aqueles que são apaixonados ou dependentes mesmo da bebida que foi execrada pela igreja Católica, por ter pertencido aos árabes muçulmanos e foi quase excomungada no século XVI, mas o bom senso prevaleceu, foi batizada como bebida cristã e popularizada entre burgueses intelectualizados na Europa.
Tradicionalmente, só ou com amigos, tomo o meu café. Claro, um bom espresso pós – almoço, forte e adocicado, aguça o meu cérebro em tardes que são verdadeiros convites a uma cama e silêncio. O dever do trabalho é rapidamente substituído pelo devir extremamente perene entre um gole e outro de um café bem preparado, acompanhado de um amanteigado e água com gás. Observações com o meu mundo e os mundos que me cerca, não deixa nenhuma dúvida que a maiêutica socrática não pertence aos filósofos e educadores, mas sim, está intrínseco na vida das pessoas, carregados de observações e tendo como combustível para as ideias, o espresso que é servido em muitos cafés, olhando o ontem e o hoje.
Um bom livro torna – se um bom companheiro com o café, favorecendo o encurtamento do tempo, relendo a belíssima obra “História do Cerco de Lisboa” do glorioso escritor lusitano José Saramago, ocupando o meu tempo com um romance histórico inteligente e fluindo na minha mente a próxima aula. Ao término de mais um capítulo do best – seller, me dirijo à garçonete: “Mais um espresso, por favor!” e com uma gentileza bastante peculiar, ela me reponde: “Pois não, senhor”, seguindo com a minha leitura, observações ao meu redor, aguardando o tempo, sem pressa, porque já tive pressa.
Aproxima – se da hora do repouso de um trabalhador, aguardando a conta da simpática senhorita que me atendeu, pensando que no dia seguinte, no momento oportuno, continuarei com o meu ritual de ocupar o meu tempo, entre a manhã e o vespertino, com um bom café, se bobear, acompanhado de amigos que possam somar, multiplicar e dividir as suas leituras herméticas sobre o mundo. Nada melhor que o café e o devir nietzscheano para adoçar a vida!

terça-feira, 25 de outubro de 2011

AS VEIAS ABERTAS DO CONTINENTE AFRICANO

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Nos tempos da faculdade, eu tive a oportunidade de ler a obra do escritor uruguaio Eduardo Galeano, As veias abertas da América Latina”. Este belo exemplar, escrito no início da década de 70, confirmou a tese da Doutrina Monroe, esmiuçando o retalhamento dos norte – americanos na América Latina. Não muito distante dessa linha, encontra – se o continente africano, objeto de cobiça desde o século XV e desfigurado pelos europeus ao longo dos séculos. Essa ideia ainda é mantida nos tempos atuais e bem citada pelo escritor moçambicano Mia Couto [ COUTO, Mia: E se Obama fosse africano? Companhia das Letras, São Paulo, págs 202, 2009 ]. Esta obra é um conjunto de ensaios, com observações profundas sobre a formação plural da cultura africana, isentando a dívida histórica dos colonizadores, fazendo uma mea culpa que envolve Estados Totalitários, conflitos étnicos tribais e religiosos.
Um dos países que pode ser definido como um microcosmo da realidade nua e crua da África pós – colonização é o Zimbábue, citado na obra, devido a perseguição de negros contra a minoria branca e a extrema pobreza, que representa a África como um todo. A África Central com o conflito entre as etnias Tutsi e Hutus, a resistência de rebeldes armados, muitos jovens e crianças no Chifre da África, especificamente, na Eritréia , Serra Leoa com uma intensa e marcante guerra civil e a tentativa dos angolanos de reconstruírem o país pós – guerra civil.
O escritor vai no campo das hipóteses com a finalidade de eliminar estereótipos e um estruturalismo político – ideológico com totalitarismo, com a seguinte pergunta: E se Obama fosse africano? Segundo Mia Couto, o presidente Barack Obama, descendente de africanos, não seria eleito na África por não ser definido na própria África como negro, e sim mulato. Além, é claro, de não existir uma unidade étnica, o que impediria de ser eleito em um continente que representa um verdadeiro mosaico étnico e cultural. O escritor africano cita suas referências literárias, principalmente autores brasileiros. Dentre eles, escritores que reforçaram o conceito de literatura regional, Jorge Amado e Guimarães Rosa reforçando o Modernismo com obras intensas. O escritor mostra as veias de um continente, mas reforça as utopias que não saíram do campo metafísico, mas sem perder a esperança de reconstruir o continente africano e manter viva a História da África. Um livro que mostra uma ideia bem mais ampla sobre a formação humana e com uma antropologia cultural única de um povo que deixou legados para todos os povos.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

CRÔNICA DE UMA MORTE AINDA NÃO ANUNCIADA

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Há exatos dez anos, eu li a obra do sociólogo alemão Robert Kurz “O colapso da modernização”, citando a derrocada da União Soviética e a prostração dos russos comunistas pós – Gorbatchev. Os louros da vitória norte – americana reforçaram a auto – sapiência e a soberba dos anglo – saxões, tendo como referencial o presidente Ronald Reagan, com a vitória ideológica do capital frente ao comunismo. Os aforismos foram substituídos por um único sistema, uma única ideia, nascimento é claro, do neoliberalismo econômico, privatizando o capital em um mundo pós – moderno. Este mesmo mundo encontra – se numa berlinda social, exigindo de nós uma nova percepção geográfica sobre “quem é de quem” numa concepção neocolonial, criada é claro, pelos norte – americanos e europeus. Certamente, os geógrafos Hatzel e Paul Vidal de la Blache teriam que refazer novos conceitos cartográficos sobre o mundo, deixando murchas a soberba e o darwinismo para trás perante a ascensão dos emergentes.
O sociólogo e escritor Zigmunt Bauman definiu o capitalismo como um parasita, alimenta – se do próprio sistema. Sim, faço a mesma leitura do Bauman, acrescentando que este sistema vive através de metamorfoses, regenera – se, mesmo que ela venha buscar o marxismo, tema, agora, divinizado nos centros acadêmicos e tomando medidas keynesianistas defendidas pelos desesperados economistas para pulverizar a marcha dos “indignados” em Roma, Madri, Londres, Nova York, numa dialética entre capitalistas. Não vejo na atual conjuntura uma luta de classes, e sim, a luta da classe A contra tributos devido a crise mundial do capitalismo. Muitos vivem de aparência, tentando materializar a sua própria existência, fruto do parasitismo cânone do sistema e a inércia de uma elite imoral e amoral.
Este hiato social só favorece e reforça o conceito existencialista dos insiders e outsiders numa esfera global, tema pertinente pelos filósofos Heidegger e Habermas em um passado não muito remoto e contemporâneos da Crise de 29, buscando o papel do homem no século XX. Mas não desejo me aprofundar em epistemologia e sim em temas empíricos que corriqueiramente estão sendo relatados nos principais veículos de comunicação, conversas amigáveis em cafés e com uma utopia que toma conta de mim. O fim dos duelos do mercado financeiro, bom senso dos "donos do poder" e humanização do próprio homem. Só assim poderemos ver prosperidade e comunhão entre os povos.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

A PUNIÇÃO COLETIVA

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O último encontro entre líderes mundiais foi marcado pela reivindicação da autoridade palestina, Mahmoud Abbas, no reconhecimento do Estado da Palestina, com um pedido formal na ONU e prontamente aceita pela maioria das nações, sobretudo, dos Estados Árabes, que passam por uma transição cultural e política, conhecida no momento atual como “Primavera Árabe”, florescendo o espírito democrático que estava em cada um dos jovens no mundo árabe. Obviamente, a idéia é comungada pelos palestinos desde a criação do Estado Israelense, em 1948, com assentamentos, já existentes para os palestinos, desde os primeiros movimentos sionistas que deram início no século XIX. O problema vai além dos conflitos étnicos e passa por questões básicas, mas sem perder a sua complexidade, como a geografia que separa a Cisjordânia da Faixa de Gaza e entre os dois o território israelense.
As dificuldades são inúmeras, como a falta de alimentos, água potável, explorando principalmente o lençol freático da Palestina atendendo assentamentos judeus, tanto em Israel quanto na Palestina. Recentemente, um navio turco foi impedido de levar mantimentos para os palestinos, após o confisco de israelenses, abrindo uma profunda crise diplomática entre Turquia e Israel. Na atual conjuntura geopolítica, a Turquia tem sido um importante ator nas relações entre o Ocidente e Oriente. Algo que não era visto desde a formação do Império Otomano. A situação é degradante nos territórios palestinos, e ainda por cima, o Congresso Americano decidiu retirar os U$200 milhões, após o pedido formal de Abbas de reconhecer a Palestina como Estado em Nova York. É uma punição coletiva, agravando o setor social e econômico em toda a Palestina. O muro que separa os territórios palestinos de Israel pode ser encarado como um apartheid étnico, com a justificativa de conter terroristas palestinos e libaneses que visitam a Jerusalém Oriental, sagrada e revindicada pelos palestinos como capital do seu Estado. Os acordos anteriores não surtiram o efeito esperado, fracasso dos mediadores norte - americanos e europeus e colocando a ONU novamente como o principal protagonista nas mediações no Oriente Médio. Esperar por um bom senso de todos para que todos possam amenizar a angústia dos palestinos.